Tuesday, June 06, 2006
Banhado.
Na orla do Banhado debruço-me sem embaraços
vejo ribanceira abaixo
o lado mais pobre da cidade
Existe a esperança estampada nos rostos
de crianças que nos trilhos de aço
circulam em um trem de poucas brincadeiras
A realidade oprime o cotidiano
A paisagem fica intacta nos resíduos que a metrópole produz
Os ventos sopram solidão nos anseios
Tragédias baratas que não vende jornal
Luzes retorcidas
Imagem útil da vida
Que resiste a todo ponto de vista
Mas não cobra nada de quem passa
Passa a limpo o desfile sem graça
Do jardim real de Marias e Josés sem flores.
Marcelo Planchez.
O castelo das rosas.
Dizem que há muitos anos, numa terra longínqua, um cavalheiro cavalgava seu corcel negro, procura num horizonte perdido, algo que lhe fizesse voltar a sorrir.
Jamais esquecerá da canção que o vento sussurrou, era um grito de adeus, que ecoava por toda parte, seu destino fora embora com Tereza, a camponesa malvada que deixou seu coração partido.
Daquele anjo feminino restava um lenço com vestígio de perfume, um aroma de hortelã que entrava por suas narinas.
Em silencio chorou por todo o caminho, suas lagrimas desceram pelo rosto, o desconsolo do cavalheiro fez a lua sentir piedade, a noite debruçou sobre os montes, velando os passos tristes de sua figura nas sombras.
O sol resplandeceu depressa, sobre o havido olhar do cavalheiro, se mostrava no fundo da íris, as lembranças do que aconteceu há poucas horas, por entre os dedos viu o seu sonho escorregar, agora só restava buscar o impossível, parece definitivo, o que de surpresa lhe tomou em desencanto.
O amor batera forte em sua porta e com os olhos fechados fantasiou trilhar um caminho de rosas, imaginou Tereza na janela do castelo acenando-lhe com um sorriso, era somente miragem, mas a pele clara de Tereza refletia um conjunto de sensações, foram instantes de felicidade que por um triz se foram junto com a tempestade de areia.
A realidade se impôs com toda força, ele realmente está no deserto, o sol escalda suas frontes, o calor atordoa seus sentidos, mas ainda está sóbrio rebuscando pensamentos positivos, alguma coisa lhe deu a certeza que não irá padecer, sentiu o perfume de rosas, naquele momento era óbvio que depois de toda aquela turbulência, virá ao seu encontro algo que se pode-se ser tocado.
Ao alcance de suas mãos achou a poucos metros seu cantil vazio, de novo a sorte lhe abandonou no instante em que mais precisa dela.
De longe viu o imenso colosso de pedra, um belo castelo apareceu como por um encanto, arcos imponentes ornam a entrada do castelo, jardim de rosas vermelhas enfeita toda a extensão dos muros, as paredes são em mármore cor de marfim, chega a refletir o tom escarlate das rosas, ali é o paraíso, talvez o anjo more em um dos aposentos, ou seja, um portal para algum tipo de abismo do inconsciente.
A armadura reluzente conduz os últimos fios do crepúsculo, o cansaço lhe domina em proporções que poderia se deitar sobre as pétalas caídas, pois é um verdadeiro tapete de veludo vermelho, o perfume das rosas lhe traz lembranças da figura feminina, mesmo aflito deita-se e não pensa em mais nada.
O desejo de rever aquela pequena é tão grande, que em seu sono profundo escanea na mente adormecida às formas perfeitas da ninfa do castelo.
Marcelo Planchez
Thursday, March 30, 2006
Wednesday, March 29, 2006
Desenho de giz na noite funda de estrelas.
A noite está apenas começando, existe um certo suspense, as ruas estão vazias, já passa das vinte três horas.
A avenida principal da cidade é extensa, sobre o asfalto circula o silêncio, que por hora traduz em tom escuro a vaidade destas esquinas, que vem se misturar às aparições coloridas, exibindo ao longo da calçada suas fragrâncias chamativas, bem dizendo, mulheres cujo beijo proibido à cidade acontece desejando seus corpos.
Os olhos percorrem a flor da tentação, querendo despedir-se no espelho alquimico, é a maneira sexual dos anjos, que se fartam em seus corpos.
A noite resume –se num passeio de alcunhas anônimas, existe celebridade, porque de fato é uma arte a sedução.
Elas intrinsecamente carregam em suas entranhas uma essência sem culpa, vem ao encontro de uma cura final para um vazio labirinto do desejo.
A lua, as estrelas, as dimensões, silhueta sem alma, sem beijo na boca, o amor se disfarça em encontros casuais.
Estas poucas mulheres não herdam o apocalipse de certas Marias, são anjos ou demônios, que tatuam em suas vidas o deus lascivo da vontade.
A cidade oculta os passageiros da luxuria, aos poucos vai se colocando em papel passado à extensão dos leitos não oficiais, isso acontece só em dados estatístico, dificilmente vem à tona o número do colegiado dos filhos das outras.
Seria não navegar a verdade, se não podermos anunciar intimamente os sussurros e gemidos em portas fechadas, nos hotéis baratos, a ocupação de certas pessoas que cuja herança de família é repudiar a má causa, é pecar às escondidas.
Quantos são aqueles que levam o bom nome e nenhum passado bate em suas portas, mas tudo sempre ocorre do mesmo jeito, porque todo o processo é frágil, elas não se pertencem mais, a vida fica lá fora nas esquinas!
O presente não se figura mais, o passado sempre espreita sem tempo, com memórias, no fundo existe uma adolescente molestada, um quadro terrível, um drama, algo que ninguém esquece, o que jamais irá secratizar, mesmo cauterizado com o paliativo, no lugar do coração vai pulsar uma pedra de gelo.
A noite é uma criança feliz, estas mulheres precisam se sentir vivas, maquiagem básica, pintadas para o estrelado, economizam lágrimas, desabam um sorriso sobre a face amargurada, a bailarina dança sua sina, novamente a menina acha-se nos braços da noite, o encantamento não vai durar para sempre, mas longe se vê o desenho de giz na noite funda de estrelas.
Marcelo Planchez.
Juli e seus ratinhos incolores.
Agora é começo de primavera, o sol está a pino, os campos sorriem floridos, a adolescência de Juli brota nos poros.
Barriguinha de fora, lá vai com sua meninice, sempre com sorriso estampado e à espera de novidades, atrás de travessuras.
Todo o dia aparece com uma novidade, desta vez são ratinhos recém nascidos e que foram abandonados pela mãe.
Juli os encontrou em uma touceira de capim, os pegou nos braços e logo foi lhes enchendo de cuidados, os ratinhos são pequenos e quase incolores, chega dar pena de tão frágeis.
Juli entrou em casa e com euforia chamou por sua mãe e em tom de voz alta, anunciou: Mãe você não imagina o que encontrei na rua! A mãe responde: Nem imagino mesmo, Juli: Olha como são lindos e como são vermelinhos!
Juli arrumou uma gaiola para ser a casa dos ratinhos, no fundo da gaiola forrou de serragem e ali os animaizinhos ficaram acomodados.
Sileide não se importou com a chegada dos novos moradores, mas avisou a Juli para que cuide e tenha responsabilidade para com os bichinhos, mas seu pai Romualdo ficou resmungando pelos cantos da casa, pois acha que animais na casa podem causar danos à saúde e por isso protesta silenciosamente franzindo a testa.
Juli nem liga para a opinião de ninguém, na verdade quer viver no limite de sua rebeldia, é adolescente e nem imagina os danos que pode causar aos outros, são um caso serio estas crianças de hoje.
Juli sabe que as transformações que estão acontecendo em seu corpo, é a fase em que as meninas de sua idade deixam de brincar de bonecas e começam a se preocupar com outros assuntos.
Os ratinhos estão ficando crescidos, mas Juli nem se preocupa, preocupa-se só em colar nas paredes de seu quarto fotos de artistas famosos e bonitos.
O som é sempre colocado nos mais alto volume, enquanto rebola o corpo inteiro em frente o espelho da sala de estar, suas amigas da mesma idade vivem na mesma sintonia, tudo que fazem parece que é o ultimo dia e o mundo se acabará, é o maior exagero.
O tempo vai se passando e Juli já esqueceu dos ratinhos, mas não sabe, que os bichinhos fugiram pelo ralo do banheiro.
Juli pensa que é dona de seu nariz! Dá cada resposta cabeluda a sua mãe, que a mãe sempre é obrigada a lhe aplicar corretivos severos.
Sileide sempre orienta dizendo que o mundo a ensinará de verdade, que depois não adianta chorar.
Romualdo sempre passa a mão pela cabeça da filha, a agradando com presentes e afagos.
Juli anda irada e curte o tal Aron Made, vai entender esta garotada, hoje em dia os valores estão invertidos mesmo, tudo que se pregava está em extinção, ficaram só as lembranças do que era certo ou quase isso.
O mundo é um parque de diversões, não existe futuro, o novo habita a vida destas meninas, a fantasia floresce a cada instante, è constante, mas ao mesmo tempo è consagrador na vida destas meninas, a felicidade de cada detalhe, mesmo que não entendamos nada do que se passa.
Juli vivi um processo difícil, é adolescente, junto com isso tudo, vem o desconhecido, são os paradigmas, não é nada sensato nas ocorrências da razão, a cabeça de Juli funciona a mil por hora, está sempre na frente dos fatos, vai assim atropelando tudo, sempre será assim para todas as tripulantes do trem do aprendizado.
O cotidiano de Juli é normal, vai á escola, lá assisti ás aulas ou fica sentada em frente à escola, na calçada tirando um barato.
Alguns adolescentes fumam cigarros, mas Juli ainda não aderiu ao vicio, porque acha que daí para outras coisas é um pulo.
No final da tarde Juli chega em casa, com uma fome de leão, devora tudo o que vê pela frente, mas na hora de fazer o serviço de casa, é um caso serio, só apanhando da mãe.
As coerências ficam muita longe do desejo de seus pais, que tem uma visão apenas daquela criança que nunca vai crescer, a cada passo os mundos terão se separar, talvez daqui alguns anos serão somente historias a ser contadas com muitas gargalhadas num Domingo de macarronada e Juli estará cuidando do futuro de seus adolescentes que serão mais ou menos iguais, talvez piores.
Envaidecida com seus cabelos brancos dona Sileide defenderá suas netas e fará imperar seus próprios metedos, verá sua conduta refletida e será julgada como mãe e avó e adolescente que foi.
Juli terá que manter –se uma mãe exemplar, não poderá nem contar os seus deslizes, muito menos as travessuras.
Juli ainda é adolescente é anda com a corda toda, aprontando mil e uma, tem uma amiga com o nome de Lua que beijou mais de duzentos meninos e é o recorde da escola, dizem que botou a boca no seguro, perigo só os sapinhos e os príncipes que passeiam em sua boca.
O mundo de Juli parece enorme, mas o seu maior sonho é ser feliz, no final ser um adulto normal, que viveu tudo no tempo certo, pois nunca ficará perdida em depressão com os problemas da consciência, se lamentando da vida, assim se sentirá mais livre, podendo abraçar o sonho no momento que quiser.
Marcelo Planchez.
Noite
A noite iniciou-se silente, alguns casais circulam sobre a calçada rumo a grandeza noturna.
O código da noite é o acordo erudito do ultimo discurso ilustrando filosoficamente a embriagues por uísque barato, fica muito difícil à compreensão deste dialeto noturno, os gestos são vários, os olhares são convites para o acaso, para um bom entendedor um pingo é letra.
Vamos simplesmente classificar o objeto a ser esclarecido, conheci uma tremenda loira a noite passada, hoje de manhã quando acordei com uma tremenda resseca, descobri que a loira era homem.
A noite traz contrastes, não se pode colocar a mão no fogo, quando o individuo homem ou mulher diz ter mais de trinta anos freqüenta a noite de segunda a segunda e ainda me diz que vem de alguns relacionamentos que não deram certo, mas procura seu grande amor, segundo uma amiga, alguma coisa tem, geralmente são bi sexuais enrustidos, diz um ditado popular “Quem Deus marcou é que defeito achou porque não quer perdê-los de vista”.
A juventude aposta nas baladas, mas existe o boêmio tradicional cuja noite é quase uma profissão, tudo é muito tendencioso, este tipo segue um roteiro rotineiro de praticar as vias sacras, traduzindo isso em doses, quer dizer pelo menos uns dez bares e alguns calos de balcão no cotovelo esquerdo.
À noite e boêmio são companheiros inseparáveis, parece um clichê barato, mas a verdade dos fatos é que não se sabe quem veio primeiro, o sereno é para todos que andam de baixo deste manto negro.
A madrugada não consola ninguém, a lua brilha até que o sol se apresente e despeça toda constelação, inclusive os desavisados que tomaram algumas doses de uísque a mais e no fim encontram a sarjeta como companhia.
Existe sempre o fim de uma trajetória, trocando em miúdos quero dizer que não há nenhum roteiro comum nem ao menos formula para a felicidade absoluta, tudo não passa de um processo, onde os indivíduos geralmente usam da rotina de alguns seguimentos para hastear alguma bandeira em defesa do transitório, o exemplo corriqueiro disto é dos navegantes desta nave chamada noite, logo tudo vai se acabar, a boêmia parte para saudar a manhã que chega rápido com sua tez iluminada pelo astro rei, as novidades são agora o hoje que combinam os fragmentos deixados pela noite que continua esperando o acaso de alguns elementos.
Marcelo Planchez
A lenda
Nossa historia começa no subúrbio do Rio de janeiro, lugar de gente pobre, de muitas crianças, aprendizes do sonho.
Na descida do morro, rostos angelicais, a maioria é de crianças negras, cuja em face à vida lhes oferece pouca coisa, já no asfalto lá vão os meninos com os pés descalços, que não sabem onde fica o próximo presépio, só conhecem as arvores iluminadas pela luz que pisca na volta de seus afazeres.
O cansaço carregando o isopor de picolé e no bolso alguns trocados, mas nem lembram que é véspera de natal, mais pelo caminho ouvem musicas natalinas.
Nas vitrines os brinquedos refletem o desejo no fundo dos olhos, mas para esses meninos, a volta para casa é o refugio feliz, mesmo que lá lhes espere o quarto de miséria, onde vivem a mãe e os irmãos.
Na verdade não se tem tempo para nada, à vida é corrida demais, o estômago dos irmãos menores não pode esperar, talvez no ano que vem, agora é preciso descansar para o outro dia.
Os meninos de cansaço vão dormir, amanhã é um novo dia.
O pai está na prisão, resta pensar que eles são meninos, mas tem que encarar a vida mais cedo.
Na entrada da favela soldados do trafico aliciam os menores com as ofertas do dia, maconha de cinco, cocaína de dez, o circo está sempre armado como uma ratoeira, escolhendo sua vitima sem rosto, que dos dez anos de idade não chegam aos vinte cinco.
O bom velhinho está no caminho da roça, ajudando de longe um espirito de natal que anda distante daquelas paradas, não adianta choro quem ninguém vai escutar, nada vai resolver, quem sabe Deus!
Nesse lugar mora um menino, chamado João, que foge da mentira, não tem medo de ser feliz, encara de verdade os obstáculos, tem orgulho de ser da favela, bate no peito e diz que é preto e pobre, mas um dia vai ser alguém.
João por onde passa abre um sorriso cativante, as pessoas são apenas pessoas, João é um menino comum, tem quatorze anos e caminha para os surtos que a cidade traz, mas não se importa com os espinhos cravados na carne, sabe que tem que fazer o melhor, matar um leão por dia, ser sempre valente, mesmo que tenha que chorar no banheiro em prantos calados.
Todo o dia é dia de viver, dá um passo de cada vez é possível, mesmo que o horizonte se mantenha distante.
As noites são estreladas, os olhos brilhantes de João procuram a estrela guia, milhões de galáxias a percorrer, mas seus pés estão pregados no chão, sem duvida, João não se esquece que existe algo muito maior, mas assim mesmo tem pressa para ir rumo a vida.
A felicidade não fica muito longe, alias fica a duas quadras do coração.
O fato de ser adolescente não impede de mantê-lo na direção do sonho, o tempo vai descobrindo João, João nasceu no dia 25 de dezembro, um bem aventurado, a meia noite nascia João de Jesus, muito esperado, em sua manjedoura era menino comum.
Mas desde suas primeiras horas de vida, havia um certo brilho nos olhos de João.
O pai disse vai se chamar João, a mãe relutou, pois sabia que daquele dia em diante seria difícil para todos, afinal de contas era mais um João para comer.
João foi crescendo e vendo todo sacrifício que a família fazia, para custear o leite, sua mãe tinha que fazer faxinas.
João é uma criança feliz, com liberdade dá os primeiros passos pela comunidade sem medo, mas atrai a curiosidade de todos, pois João tem olhos azuis e é preto como um tição, os vizinhos falam que é
um anjo disfarçado de menino.
Sem duvida, pode até ser que seja algum tipo de milagre, pois desde que João chegou à favela não parou de acontecer coisas estranhas.
Certo dia, João brincava em frente à casa de dona Sônia, que não podia engravidar por problemas de saúde que tinha.
Dona Sônia fixou os olhos em João e desejou que ele fosse seu filho, meses depois, dona Sônia engravidou.
Todos dizem que João é um santo de Deus, menino exemplar, que não mede esforços para ajudar as pessoas.
João é a lenda viva que pode ser tocada, existe uma certa magia, uma concepção silenciosa, que apenas é.
João é um ser especial que transforma o mito em fé, os olhos azuis de João serão um céu de favores, tudo leva a crer, que tudo fica mais fácil se entregarmos à alma a este prodígio santo, pois nunca é coincidência quando falamos de fatos, fatos estes, que buscam celebrar a vida em excelência.
Um dia das janelas dos barracos o anjo João personificado na figura do Pai baterá asas e levará consigo um saco de milagres, cheios de misericórdia e derramará sobre o sofrimento daqueles que pedem em silencio.
Marcelo Planchez.
Cidade Velha
O vento solitário sopra nas ruas, a noite vem de mansinho se aconchegar na aparente calmaria do centro velho, que quase sem movimento, vai de carona se assentar nas praças iluminadas, onde reside o lado nostálgico, que sem alvoroço vê os habitantes que vão tomando lugar nas cenas que completam o panorama, existe todo um significado lúdico, são passageiros de uma só esfera, anônima que carregam nos olhos um sentido do não explicado, apenas são feitos de fragmentos de qualquer razão que os faça respirar.
A cidade é um contra argumento, é discutida nas rodas de prosa de cada esquina, as ruas são marcadas pela historia que cujo narratoria vem de elementos que fazem parte de um quebra cabeças, é todo essência, mesmo que seja o contrario das opiniões que segue os hábitos populacionais.
A cidade não dorme, fica em alerta, abrigando os passageiros que de teimosos repetem sucessivamente o de costume, em cada direção pulsa uma vontade, o desejo é algo vulnerável, todo ser noturno é arredio, mas frágil além da visão dos olhos, o sonho permanece condicionado ao coração, não existe diferença, apenas são não convencionais para certos parâmetros.
A cidade segue seu próprio ritmo, a maldade é nos que vemos, nada do que não seja preciosa, a vida se equilibra nas entrelinhas sobre fatos alheios, a vontade somente conduz o livre arbítrio.
Na cidade é que tudo acontece, existem paraísos multilaterais, a noite é preciosa, cheia de magia, homens e mulheres munidos de coragem navegam na madrugada à procura de alguma aventura.
Em frente ao terminal rodoviário, no lado esquerdo sobre a calçada, um vendedor de cachorros quentes, ganha a vida com sua carrocinha, ele fica o dia inteiro de olhos atentos, fica forçando ver através das lentes artificiais, acompanha de perto, mas quando chega a noite, não perde um movimento, neste lugar, já viu um pouco de tudo.
De fato este rapaz é testemunha ocular de tudo que acontece pela redondeza, pois conhece todos os ladrões do trecho, trombadinhas e trombadões, prostitutas, transexuais, travestis e toda sorte de pessoas que circulam e se diferenciam das de mais.
Enquanto vai preparando os cachorros quentes, vai ouvindo os depoimentos de seus fregueses, que muitas vezes contam suas historias tristes ou alegres propostas, pedidos e até conselhos.
Bêbados ficam caídos de baixo das marquises das lojas ou em frente dos bares, às vezes são pessoas ilustres que se embriagam, acabam sendo vitimas da violência urbana, que é muito comum neste lugar.
No velho centro existe um exercito de andarilhos, a fome assola a barriga de muita gente, enrolados nos trapos, passam a noite deitada nas calçadas, o pessoal da sopa chega sempre na hora certa e socorre os famintos.
Cafetões vigiam suas ninfas, garotões circulam a procura dos passadores de droga, estes espalham o produto pela cidade, a população dorme intranqüila sobre égide do inesperado.
A cidade é uma caixa de surpresas, existe um quadro crônico de insegurança, ladeira abaixo pivetes ensaiam um biscate a mão armada, como de costume a noite passa despercebida e silenciosamente às avessas nas sombras escondidas em dúzias de tragédias que quase sempre não chegam aos plantões policiais.
As tragédias circulam pela orla o fora, é a moradia ruim, a falta de dinheiro para comprar o pão, o menino que pede no sinal fechado, a mãe que chora a falta do filho que foi assassinado, as balas perdidas desta arma silenciosa que é o pouco caso.
Os boêmios são os últimos a partir, o sol vem os consolar com reluzente prazer de ter companhia, a aurora festeja um dia por vir, é mera satisfação, é quase inocente as ruas vazias da manhã de hoje, é quase desfeito o juízo que a lua impôs de tão bela a noite passada, o sereno cai sobre o acontecido, quimeras de felicidade, os sinos labutam marcando o tempo, o coro de pássaros anuncia que tem missa na matriz, pessoas em ritmo acelerado vão a caminho do trabalho, a cidade transcorre normalmente.
Marcelo Planchez
Monday, March 06, 2006
Saturday, February 25, 2006
Wednesday, February 22, 2006
Um risco e uma trajetória
Que fosse o risco reto na folha de papel
Que fosse em poucas palavras que descrevêssemos o mais solene verso
Que fosse o tempo em que nossas almas debruassem caladas sobre a multidão de imagens
Que fosse as mãos abeis e a caneta o meio supremo de impor o calor intenso da poesia
Que fosse o tempo e o relógio uma trajetória.
Que fosse em minhas veias o rio sangrento de toda a revolução
Que fosse o céu iluminado que nunca se apaga
Que fosse à criança de vestes brancas com um largo sorriso.
Que fosse a constelação inteira brilhando
Que fosse a seqüência incessante de ondas do mar
Que fosse o coração batendo de emoção
Que fosse o universo mágico da imaginação
Que fosse o beijo molhado de ternura
Que fosse o jeito dengoso de ser
Que fosse o caminhar feminino
Que fosse o jardim de margaridas amarelas
Que fosse o suspiro da vida de quem fosse
Que fosse apenas um simples soprar do vento
Que fosse o abrir e fechar de olhos
Marcelo planchez
Noite
A noite iniciou-se silente, alguns casais circulam sobre a calçada rumo a grandeza noturna.
O código da noite é o acordo erudito do ultimo discurso ilustrando filosoficamente a embriagues por uísque barato, fica muito difícil à compreensão deste dialeto noturno, os gestos são vários, os olhares são convites para o acaso, para um bom entendedor um pingo é letra.
Vamos simplesmente classificar o objeto a ser esclarecido, conheci uma tremenda loira a noite passada, hoje de manhã quando acordei com uma tremenda resseca, descobri que a loira era homem.
A noite traz contrastes, não se pode colocar a mão no fogo, quando o individuo homem ou mulher diz ter mais de trinta anos freqüenta a noite de segunda a segunda e ainda me diz que vem de alguns relacionamentos que não deram certo, mas procura seu grande amor, segundo uma amiga, alguma coisa tem, geralmente são bi sexuais enrustidos, diz um ditado popular “Quem Deus marcou é que defeito achou porque não quer perdê-los de vista”.
A juventude aposta nas baladas, mas existe o boêmio tradicional cuja noite é quase uma profissão, tudo é muito tendencioso, este tipo segue um roteiro rotineiro de praticar as vias sacras, traduzindo isso em doses, quer dizer pelo menos uns dez bares e alguns calos de balcão no cotovelo esquerdo.
À noite e boêmio são companheiros inseparáveis, parece um clichê barato, mas a verdade dos fatos é que não se sabe quem veio primeiro, o sereno é para todos que andam de baixo deste manto negro.
A madrugada não consola ninguém, a lua brilha até que o sol se apresente e despeça toda constelação, inclusive os desavisados que tomaram algumas doses de uísque a mais e no fim encontram a sarjeta como companhia.
Existe sempre o fim de uma trajetória, trocando em miúdos quero dizer que não há nenhum roteiro comum nem ao menos formula para a felicidade absoluta, tudo não passa de um processo, onde os indivíduos geralmente usam da rotina de alguns seguimentos para hastear alguma bandeira em defesa do transitório, o exemplo corriqueiro disto é dos navegantes desta nave chamada noite, logo tudo vai se acabar, a boêmia parte para saudar a manhã que chega rápido com sua tez iluminada pelo astro rei, as novidades são agora o hoje que combinam os fragmentos deixados pela noite que continua esperando o acaso de alguns elementos.
Marcelo Planchez
www.arautos.digitalvale.com.br
Contra ponto
Não é de hoje que existe um certo desprezo das pessoas que compõem a comunidade cultural de São José dos Campos, a tão falada vanguarda cultural, que sempre se estabeleceu como o movimento pós Cassiano Ricardo.
Na verdade, estas pessoas não passam de aventureiros, são o resultado de grandes apradinhamentos políticos, é o que podemos chamar de projeção fisiológica.
Hoje em dia não existe mais um circuito cultural na cidade e se depender desta geração que ai está, não haverá ao menos ação descentralizada de cultura.
Em São José dos Campos se vive de lembranças, do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça.
Realmente acontecia algum movimento cultural, vale lembrar que no auge dos anos 80, o artista se apresentava nas praças, não se tem noticia de nenhum movimento paralelo, foi um dos maiores movimentos desta época, não existia a Fundação Cultural Cassiano Ricardo e nem diretor cultural para descentralizar ninguém.
Tudo ocorria como devia, muitos nomes passaram por ali.
Hoje em dia, o movimento literário conta com o conhecido grupo poético Arautos Urbanos, que através dos poetas e produtores culturais Marcelo Planchez e Joca Faria não deixam o sonho morrer.
O Grupo poético Arautos Urbanos, já gravou dois CDs de poesia, o CD Republica das Letras, CD Cidade das Palavras, ainda conta com um SITE na INTERNET, www.cidadedaspalavras.digitalvale.com.br
O Grupo poético Arautos Urbanos conta com o trabalho de mais de quinze autores, todos da cidade de São José dos Campos, todos inseridos nas gravações dos CDs.
O Grupo Arautos Urbanos está preocupado em desenvolver produtos culturais no campo da literatura e também busca criar uma cooperativa de escritores e uma editora virtual.
Marcelo Planchez.




